A vida além do futebol
Martha Medeiros
Só se fala em futebol, só nisso. Pois é, a vida continua, e portanto aqui vão algumas dicas e algum papo furado para a gente lembrar que antes e depois do jogo contra a Austrália há muito o que fazer e curtir. Durante o jogo, não. Durante você não se mexe, a não ser para saltar feito pipoca a cada gol. Lembra? Pipocas e pessoas? Tudo bem, deixa pra lá.
Vamos em frente. O que mais existe na vida além de futebol? Música. Estou absolutamente fascinada por Corinne Bailey Rae, uma inglesa de 26 anos que lançou seu primeiro disco em março desde ano e conquistou merecido sucesso com sua voz doce e sofisticada. O disco é daqueles de se ouvir do começo ao fim olhando para algo bem bonito – o mar, o pôr-do-sol, seu amor – e pensar que a vida, afinal, até que é boa.
Qualquer pessoa que tenha o costume de ler resenhas de livros dever ter reparado que toda a imprensa – milagre, até a Veja! – elogiou o recente romance do Daniel Galera, Mãos de Cavalo. Pois sou obrigada a dizer que os jornais e revistas estão cobertos de razão: é bom esse guri. Não bastasse a história bem contada, com idas e vindas no tempo, há ainda para nós, gaúchos, a delícia de se situar nas ruas onde tudo se passa. Acompanhamos o personagem descendo de carro a Salvador França, e lá adiante, bem adiante, chegando na Juca Batista, e a memória da infância o levando ao Morro da Polícia, e esta familiaridade nos ajuda a visualizar a história como espectadores privilegiados.
Ainda literatura: já havia comentado uma vez sobre David Sedaris, um americano de origem grega que tem um humor parecido com o de Dorothy Parker e Woody Allen, e que estreou no Brasil com o ótimo Pelado, um livro que reúne crônicas mordazes sobre sua infância e juventude. Agora li dele De Veludo Cotelê e Jeans e achei ainda mais enxuto e mais divertido. Sedaris faz uma obra assumidamente biográfica, e quem tem uma família como a dele não precisa mesmo apelar para a ficção. Hilário.
Você que não costuma ir pra Zona Sul, mas ao mesmo tempo cansou de frequentar os mesmos lugares, aventure-se na sua própria cidade: vá conhecer o Bistrô do Pátio, um charmoso restaurante italiano na Wenceslau Escobar. Com sorte, você encontra o Sergio Faraco por lá, já que sua filha e o genro é que tomam conta do lugar. E com mais sorte ainda você encontra um Don Laurindo na carta de vinhos – coisa nossa, de Bento – e que não faz feio em nenhuma comparação com os importados.
Um outro lugar legal para um happy hour ou jantar é o Villa Basca, ali na descida da Plínio, quase na Igreja Auxiliadora. Ambiente discreto, acolhedor e serve umas tapas que vou te contar. O vinho, desta vez, poderia ser um Marquês de Riscal, pra manter o espirito espanhol, mas este eu só tenho tomado na imaginação, não é pra qualquer bolso.
Adicione a tudo isso uns encontros com os amigos, umas escapadas no final de semana, um pouquinho de contato com a natureza, umas caminhadas e veja só, ser feliz ainda não é um plano a ser descartado.
Deixe pra sofrer apenas na frente da TV, naqueles dias, você sabe quais. Não, não estou falando nos dias de CPI.
Domingo, 18 de junho de 2006.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.